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Amadurecendo... sempre.
Domingo, Novembro 28, 2004

Quando eu estou concentrado em algo, só caindo um raio na minha frente para desviar a minha atenção.
Foi, precisamente, o que aconteceu.
Eram 15:00 h. O céu havia escurecido como se já fosse noite, mas nem isso foi suficiente para me distrair da minha diversão.
Estava eu, confortavelmente instalado na minha cadeira "estilo diretor" de encosto alto, micro ligado, absorto na minha rotineira visita ao "Playground dos Dinossauros", rindo como sempre, quando, ao iniciar a leitura do texto do Bananassauro... O clarão e o estrondo foram simultâneos.
Isso, sem dúvida, conseguiu desviar a minha atenção.
Desliguei o micro enquanto aguardava a minha pulsação ficar abaixo dos 200 bpm.
Ato contínuo - acabou a energia. Passei então a desligar todos os fios das tomadas. Isso já é um hábito antigo nessas ocasiões. Apesar de nunca ter perdido nenhum eletrodoméstico, conheço várias pessoas que já perderam. Minha irmã, inclusive, ficou sem a TV, o vídeo-cassete e o aparelho de som. O grande perigo não é quando a energia acaba e sim quando ela volta. Um forte pico de energia pode queimar os aparelhos conectados nas tomadas, ligados ou não.
E aí, meus amigos, o gran finale!
A chuva desabou.
Chuva é brincadeira... Perdoem-me a comparação grosseira, mas foi como se tivessem dado a descarga lá em cima. Caiu um mundo de água de uma só vez.
Espalhei os meus paninhos nas janelas (aqui em casa entra água por todas as esquadrias) e voltei para a sala.
Feito isso, restou-me apreciar o espetáculo pela janela.
Foi aí que eu o vi.
Era um velhinho de barba branca que corria, apressado, na chuva.
Me pareceu familiar, mas na hora não me lembrei de onde o conhecia. Agora, pensando com calma...
Eu só o vi de relance, por isso não posso afirmar... Mas juro que era a cara do Noé.
P.S.: O "dilúvio" durou 40 minutos até cessar, deixando somente uma chuvinha fina. Deve ter feito estrago em algum lugar.
Por aqui, tudo bem.
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Paulo
:: 4:56 PM ::
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Sábado, Novembro 27, 2004

Tudo bem... Eu já falei demais a respeito da minha atração pela tecnologia.
Fui, inclusive, viciado em games de computador por muito tempo.
Mas agora eu quero falar de tempos mais simples. Prazeres mais simples.
De outros vícios mais saudáveis, creio eu.
É que, de vez em quando, me pego lembrando com saudades das brincadeiras de salão de anos atrás.
De quando reuníamos a família ou os amigos (ou todos juntos) para brincar de mímica, dicionário, baralho ou um daqueles jogos de tabuleiro do tipo Banco Imobiliário ou War.
Ali passávamos horas... Tardes e noites inteiras... Por diversas vezes avançávamos pela madrugada.
"- Você caiu na minha propriedade... Paga!... - Espera... Vamos negociar... Eu te dou a Cia. Telefônica..." (Banco Imobiliário).
Buraco, Sueca, Mau-Mau... Rodadas intermináveis de Pôquer! Eu adorava jogar pôquer! Ainda guardo meu fichário à espera de parceiros.
Havia um jogo, com cinco dados e umas tabelinhas a serem preenchidas, chamado YAM... Alguém se lembra? Eu tenho.
Tenho todos os jogos que eu citei e mais alguns...
Mas me falta um componente indispensável: os parceiros.
Ninguém mais sai de casa. Inclusive eu. Não me isento de culpa.
Todos estão envolvidos com os seus próprios problemas... Com medo da violência... Enclausurados nas suas casas.
Bons tempos aqueles em que as notícias de violência nos jornais nos chocavam, mas pareciam distantes de nós. Hoje fazem parte do nosso dia-a-dia.
Tempos mais tranqüilos, aqueles.
O computador então, era algo restrito às grandes corporações, à NASA, ou a filmes de ficção científica.
Sinto saudades daquelas noitadas de diversão simples e descontraída. Sem apetrechos eletrônicos sofisticados. No máximo, na madrugada a vitrola rolando um blues, tocando B.B. King sem parar.
Tudo regado a salgadinhos (pizza opcional), cervejinha ou refrigerante, ótimo papo, risadas, calor humano e AMIZADE!
Eu daria, sem pensar duas vezes, o meu micro de (pen)última geração para ter tudo isso de volta.
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Paulo
:: 3:14 PM ::
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Quinta-feira, Novembro 25, 2004

Eu sou um aficionado por tecnologia.
Se eu pudesse trocava (no mínimo atualizava) o meu computador a cada seis meses.
"Lançamento" - essa palavrinha tem um efeito quase mágico em mim.
A cada novo lançamento tecnológico eu deliro. Leio o que me cai nas mãos a respeito da novidade, me informo e, se for o caso, começo a juntar os "trocados" para a minha próxima aquisição.
Pentium 4, 3.4 GHz, Hyper Threading, 800 MHz FSB, Memória 1 Gb DDR, HD 120 Gb S. ATA, Monitor de LCD de 19", Placa de Vídeo ATI Radeon 9800 Pro 256 MB, Som Sound Blaster Audigy 2 Platinum com Home Theater 5.1 JBL. (*)
Essa sopa de letras, que não deve significar nada para um neófito, me arrepia.
Gravadores de DVD, câmeras digitais, home theater com tela e projetor de alta definição, também são coisas que me fazem sonhar.
E para complicar, atrelados aos equipamentos que eu mencionei, vêm pencas de acessórios e itens adicionais. Chips de memória para as câmeras, adaptadores, carregadores, bolsas e/ou valises para transporte, cabos óticos e fios com conectores banhados a ouro, filmes e shows em DVD, softwares e games que não param de surgir (sempre exigindo mais desempenho dos equipamentos)...
A minha sorte é que a minha compulsão ao consumo está sob controle.
Senão eu já teria falido há muito tempo.
(*) Essa era a configuração, no momento que eu escrevi este texto, de um ótimo micro.
Eu disse "era" porque no momento que vocês estiverem lendo talvez já exista algo melhor.
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Paulo
:: 11:17 PM ::
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Terça-feira, Novembro 23, 2004

Recentes pesquisas revelam que mais de 80% do poder de compra no mundo está nas mãos das mulheres.
Por outro lado, as mesmas pesquisas revelam que mais de 60% dos inadimplentes no mundo são homens.
Conclusões?
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Paulo
:: 4:32 PM ::
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Quinta-feira, Novembro 18, 2004

Segunda-feira, dia 15, Programa do Jô.
Entrevistado: Arnaldo Jabor.
Assunto: além da propaganda do recém lançado livro do Jabor, o assunto foi "lembranças da adolescência".
E quantas lembranças deliciosas me vieram durante a entrevista...
Perguntado sobre suas primeiras experiências sexuais Jabor lembrou que, naquela época, não existiam revistas de sacanagem. A masturbação era estimulada por imagens de modelos de lingerie ou revistas de naturismo. Em branco e preto, com modelos suecas em poses bastante recatadas para os explícitos dias de hoje.
Eu sou um pouco mais novo que o Jabor, mas lembro-me bem como era.
Recordo que meu pai, fotógrafo amador, tinha também algumas revistas importadas, sobre fotografia, com modelos de maiô e algumas com os seios nus. Também eram monocromáticas... Mas como eram maravilhosas aquelas deusas em tons de cinza!
Uma dessas revistas eu guardo até hoje. Como uma relíquia... Um precioso vínculo com a minha infância (foto abaixo).
Capa da revista "Salon Photography" de 1956.
Uma das fotos (pág. 103), Striped Nude, da autoria de Danny Rouzer (Hollywood).
Notem as sombras estrategicamente posicionadas.
Acreditem, isso era o máximo do erotismo.
Quantas vezes aquelas fotos me fizeram companhia na solidão do meu quarto, ou do banheiro, alimentando a minha imaginação.
Mas a minha geração já pôde contar, alguns anos depois, com a ajuda de um carioca, funcionário público, compositor e desenhista nas horas vagas - Alcides Caminha.
Aliás, ele só era conhecido pelo nome quando desempenhava as duas primeiras atividades, funcionário do Ministério do Trabalho e compositor. Quando desenhista se transformava em Carlos Zéfiro.
Nos anos sessenta, quando comecei a conhecer e me interessar pelo "assunto", Carlos Zéfiro era o maior expoente da sacanagem.
Suas revistinhas eram itens obrigatórios embaixo do colchão ou na caixa de sapatos (no fundo do armário) de qualquer garoto da minha época. Mas no interior de São Paulo, com pouco mais de 12 anos de idade e a grana da mesada que mal dava para o lanche, eu tinha que fazer "malabarismos" para conseguir uma.
Tanto assim que os poucos exemplares que eu consegui foram na base de troca. Gibis, piões, figurinhas carimbadas... Valia qualquer coisa que tivesse valor de mercado.
Os desenhos de Carlos Zéfiro nos levavam à loucura e nem eram tão bem feitos assim. A morena exuberante da primeira página podia aparecer com o cabelo diferente na página seguinte, ou mais gorda, ou mais magra... Mas esses detalhes eram irrelevantes. O tesão era instantâneo.
(Mais sobre Carlos Zéfiro em ludmira.hpg.ig.com.br/galeriazefiro/ZefiroP01.htm)

Desenhos de Carlos Zéfiro.
Zéfiro foi relembrado por Marisa Monte na capa de um de seus cds.
Havia também uma aura de pecado, comum na minha geração, ligada a tudo que se relacionava com sexo. Só que, ao invés de nos afastar dos "prazeres da carne", apenas emprestava um tempero a mais. Ficava muito mais gostoso saber que aquilo era proibido e que estávamos ameaçados com o inferno ou, no mínimo, com o purgatório. Então, por precaução, eu me confessava toda semana. Pagava a minha penitência e pronto... Estava "zerado" para a semana seguinte.
O padre daquela paróquia, com certeza, já havia decorado os "pecados" que eu, mecanicamente, recitava quase todos os domingos.
E eu tinha aquela vizinha sacaninha (lembram?), mais velha que eu, que adorava me mostrar, na prática, o que eu via nos desenhos.
Tempo bom...
UPDATE - 17:00 h: Para melhor esclarecer as minhas idéias a respeito do tema, gostaria de acrescentar que considero a foto da modelo nua, acima exposta, quase ingênua se comparada ao que se vê hoje em qualquer banca de jornais, ou mesmo na tevê.
Uma modelo nua, entre sombras, com o olhar vago, choca menos do que dois atores seminus, se entrelaçando na cama, numa cena tórrida da novela das oito. À cores.
Quanto à associação do sexo ao pecado que eu citei, acrescento que tive uma formação religiosa. Católico, fui até coroinha... E todo aquele aprendizado me confundia demais. Eu me sentia culpado.
Mas eu tinha 12 anos de idade e estava começando a conhecer o sexo. Não havia consumação do ato nessa idade, apenas as "brincadeiras" de costume.
As sensações eram indescritíveis. Eu não conseguia entender como algo tão gostoso podia ser pecado.
Ainda assim me confessava regularmente e usava aquela sensação momentânea de absolvição para aliviar a consciência. Mas na semana seguinte tornava a cair em tentação. :-)
Hoje parece divertido, mas na época era coisa séria. Temíamos o pecado carnal, quando na verdade éramos apenas crianças descobrindo, sozinhas, os mistérios do sexo.
E bota mistério nisso! Naquela época não tínhamos acesso à informação como hoje. Sexo se aprendia na rua... Em casa era assunto proibido.
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Paulo
:: 12:42 AM ::
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Sábado, Novembro 13, 2004

Sexta-feira, 22:45 h.
Acabo de chegar de Porto Alegre... frustrado.
Acho que os astros conspiraram contra mim.
Afinal, tudo estava a meu favor.
Embarquei para o sul com céu de brigadeiro, limpo e azul...
Horário de verão... Com o sol se pondo às 19:00 h (ou mais, dependendo do local).
E em Porto Alegre choveu todos os dias!
Com direito até a anúncio de ciclone extratropical que, felizmente, soprou em outras paragens.
E eu, mais uma vez, não pude ver o famoso pôr do sol no Guaíba.
Mas, pelo menos, visitei a 50ª Feira do Livro, na praça da Alfândega, e acabei comprando O Código Da Vinci.
Depois de tanta gente boa elogiar, eu não resisti à curiosidade.
===============
Lembra daquele comercial dos cobertores Parahyba?
"Já é hora de dormir,
Não espere a mamãe mandar..."
E o das casas Pernambucanas?
"Quem bate?
É o frio..."
Pois se você quer relembrar, ou se nunca ouviu falar mas quer conhecer, então
precisa visitar o site TV Brasil - Anos 50 e ver (ou rever) os primórdios da
televisão no Brasil. Ao entrar clique em "Comerciais".
(Dica da Regina, por e-mail).
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Paulo
:: 12:06 AM ::
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Sexta-feira, Novembro 05, 2004

Vocês já conhecem o BLOGLÓIDES?
Não?
Então confiram.
:))
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Paulo
:: 8:23 PM ::
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Segunda-feira, Novembro 01, 2004

Eu costumo filtrar bastante o que recebo pela Internet.
Recebo muita coisa por e-mail. Uma boa parte é descartável... Para ler e deletar.
Piadas, historinhas, correntes (argh), fotos de todos os tipos (de mulheres nuas a cadáveres desmembrados), mensagens de otimismo, clips, músicas, apresentações do Power Point...
A grande maioria eu já conheço. Já recebi dezenas de vezes, mas a pessoa que manda acha que é novidade. Isso é normal.
Se eu fosse guardar tudo (como fazia no início) o meu HD não seria suficiente.
Mas alguns textos merecem ser guardados. Lidos e relidos.
Como esse que eu separei hoje.
Recebi, por e-mail, de uma amiga que me fazia companhia nas madrugadas de chats. Amiga virtual que se tornou real. Uma das poucas.
Não sei se a autoria indicada está correta (se alguém souber, agradeço) e não vou entrar no mérito das qualidades literárias porque isso não me interessa. Não sou crítico literário.
O que me atraiu foi a verdade do texto. Um retrato de nove em cada dez viciados em Internet, entre os quais me incluo.
Acredito que o meu vício esteja sob controle... Mas não é isso que todos os viciados pensam?
Bem, vamos ao texto. Vale a pena ler.
Internautas Anônimos
(Silvia ou Silvana Duboc)
Boa noite. Meu nome é Maria e eu sou uma dependente virtual.
Hoje faz cinqüenta e dois dias que não entro na net.
(APLAUSOS)
Minha história é provavelmente parecida com a de muitos aqui e com a de outros que ainda não chegaram até aqui por negarem a si próprios o nível de dependência que já desenvolveram.
Tudo começou há oito anos atrás.
Descobri a Internet e achei um passatempo inigualável.
A princípio navegava meio que sem rumo.
Cheguei a visitar sites interessantes e tomei conhecimento de coisas importantes que desconhecia.
Logo vieram os chats, onde imaginei estar fazendo diversos "amigos".
Todos os dias eu os visitava na ânsia de reencontrar aquelas pessoas e conhecer outras.
Gastava horas sentada em frente ao computador conversando, brincando e revelando os meus segredos mais íntimos para pessoas que nunca havia visto, e muitas delas jamais cheguei realmente a conhecer.
Aos poucos, comecei a viver romances com nicks/homens que eu não tinha a menor idéia de quem eram. Julguei-me apaixonadíssima várias vezes e imaginava ser recíproco, mas a verdade foi aparecendo sob uma nuvem de inúmeras fofocas.
A razão do meu amor era, no mínimo, envolvido com mais quatro ou cinco e fazia a elas as mesmas juras que fazia a mim diariamente.
Com isso veio a decepção, depressão, raiva, revolta e muitos desentendimentos virtuais.
Cheguei a colecionar inimizades por conta disso, perdi noites de sono por causa de pessoas que jamais vi o olhar ou senti o toque.
Quanto aos "amigos", vim a conhecer alguns pessoalmente.
Algumas surpresas, não eram exatamente o que pareciam no virtual.
Os mais extrovertidos, na verdade, eram extremamente tímidos, os que eu desenvolvia
imensos papos no virtual na minha presença tornaram-se distantes, não houve
a mínima afinidade entre nós.
Comecei a pensar que coisa estranha é esse contato virtual.
Nós nos relacionamos intensamente com pessoas que nem sabemos quem são, isso sem falar do principal: caráter. Pdemos estar nos entregando de corpo e alma para alguém, amores/amigos, que em algum momento usará das nossas fraquezas para denegrir a nossa imagem.
Mais adiante, comecei a participar das tais listas de discussões, achei interessante.
Bate papo, muita poesia, algumas desavenças, amores clandestinos, no fim, uma cópia dos chats.
MSN e ICQ também entraram na minha vida.
Os apitos de chamada tocavam insistentemente e eu atendia a todos. Na maioria das vezes eram fofocas, diz-que-diz-que.
Comecei então a escrever poesias, me dei conta que na Net todos podem ser poetas, embora nem todos tenham esse dom, assim como nem todos nos lêem, seja você bom ou ruim. A questão é a falta de tempo.
O nível de e-mails que eu comecei a receber por dia era algo tão incrível que eu não tinha como ler todos e imaginava que isso acontecia com os outros também.
Existia também a guerra das vaidades.
Celebridades brotavam a todo instante e disputavam um lugar de maior destaque, independente da situação que tivessem que enfrentar ou ao ridículo que precisassem se expor.
Eu ficava conectada vinte e quatro horas por dia, isso sem falar nos inúmeros telefonemas interurbanos que dava e recebia.
De certa forma, a minha vida financeira foi sendo afetada, enquanto a minha vida particular foi sendo invadida.
Se é que nessa época eu tinha uma vida real e particular.
Sem que eu percebesse, os meus contatos foram aumentando assustadoramente, e em dias que, por ventura, eu não podia acessar a Net, minha caixa de correio estourava.
Chegava até mim de tudo. Algumas coisas super-interessantes, outras detestáveis, como por exemplo discussões entre pessoas que eu mal sabia quem eram.
Claro que dentre tudo isso que estou relatando tive também alegrias.
Vícios, sejam eles quais forem, têm sempre um lado bom e é esse lado que nos algema e nos deixa sem reação para reagirmos contra ele.
Certos dias me diverti muito nos chats e nas listas, tive oportunidade de conhecer ao vivo e a cores pessoas verdadeiras e especiais... mas esqueci completamente da minha verdadeira vida, a real.
Sem que eu percebesse, fui abandonando os amigos reais, ignorando a família, deixando de cumprir compromissos importantes.
Em dias em que o sol brilhava me convidando a aproveitar a vida eu continuava ali, escrava do meu micro.
Assuntos que não diziam respeito à Net já não me interessavam, e pessoas com as quais eu não podia conversar sobre ela passaram a se tornar enfadonhas para mim.
Parei de ler, de ver tv, de reunir amigos em casa, de sair para tomar um chopp, de ir ao cinema, de viajar.
Na minha cabeça os pensamentos só diziam respeito a nicks, listas, problemas pessoais de "estranhos", injustiças cometidas contra amigos virtuais, rusgas com pessoas que eu nem imaginava quem eram.
Até mesmo problemas de saúde eu desenvolvi em função da vida sedentária, isso sem falar, é claro, dos problemas de cabeça que foram me consumindo e eu não reparava.
Percebi, finalmente, que eu não estava vivendo. Por mais que as pessoas que estão a nossa volta a alertem sobre isso, não adianta.
Tem que vir de dentro de nós essa constatação.
Acho que não via a lua há muito tempo, quanto ao sol nunca reparava se ele estava no céu ou se era um dia de chuva, isso não fazia diferença, só o que fazia diferença para mim era se a conexão estava boa naquele dia. Todo o resto deixou de ser importante na minha vida.
A Net me devorou como se fosse um leão feroz a ponto de eu achar que não havia mais nada interessante que se pudesse fazer na vida, caso ela me faltasse.
Como eu disse, meu nome é Maria, tenho quarenta e cinco anos.
Descobri recentemente que meu filho está amando há mais de dois anos e que minha filha perdeu a virgindade ano passado e eu não tive tempo e sensibilidade para perceber essas coisas.
Recentemente, minha filha me disse - eu tentei conversar com você na época, mãe, mas você não me ouvia...você não ouvia mais ninguém.
Hoje faz exatamente cinqüenta e dois dias, cinco horas e vinte minutos que não entro na net e estou feliz, embora entenda que ainda sou uma dependente virtual.
:: Publicado por
Paulo
:: 8:12 PM ::
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