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Amadurecendo... sempre.
Terça-feira, Dezembro 28, 2004

Já publiquei esse texto em dezembro de 2003, mas, sem dúvida, merece um repeteco.
Receita de Ano Novo
Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
____________________
Eu desejo a todos vocês, seus familiares e amigos,
um 2005 de muito Amor, Saúde, Prosperidade, Harmonia
e muita, muita PAZ.
:: Publicado por
Paulo
:: 8:13 PM ::
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Sábado, Dezembro 18, 2004

A mudança foi concluída, mas não as arrumações. Ainda estou me acertando. Portanto todas as minhas atividades normais estarão comprometidas por tempo indeterminado.
Talvez eu retome o blog ainda este ano... Talvez somente em 2005... Ou talvez eu reconsidere essa minha necessidade de escrever aqui e busque outras alternativas.
Decisões de fim de ano.
Por enquanto, na medida do possível, vou publicando coisas que escrevi nos intervalos do trabalho.
_______________
Minha filha disse que precisava conversar comigo. Conversa séria.
Eu sabia que ia ser colocado em xeque, como sempre.
- Pai, começou ela, eu sei que Papai Noel não existe.
Que pena...
Isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde.
Eu preferia que fosse mais tarde.
_______________
Mais lembranças...
Eu já contei aqui que nasci e cresci, até os 13 anos, na cidade de Sorocaba, interior de São Paulo.
O Natal nos anos sessenta, em Sorocaba, era uma festa muito bonita de confraternização. Dia de reunir a família, vizinhos e amigos. Na noite do dia 24 se iniciava uma espécie de romaria de vizinhos pelas casas. Recebíamos e visitávamos as pessoas das proximidades. Assim a rua ficava em constante movimento. As pessoas alternando-se nas casas.
O pernil na casa do Dr. Oswaldo... A torta de nozes na casa da dona Francisca... E as rabanadas... Lembro-me, particularmente bem, das rabanadas da dona Antônia, esposa do Dr. Odilon, um advogado que morava na casa ao lado da nossa. Eram inigualáveis.
Meus pais e avós moravam em duas casas no mesmo terreno. Meus avós na casa da frente e os meus pais na dos fundos.
Na nossa casa a minha avó, em parceria com minha mãe, costumava fazer uma mesa farta que recebia com folga os amigos. Quase sempre havia um leitão que era engordado por alguns dias no nosso quintal antes do abate. Ocorre que, invariavelmente, nos apegávamos ao bichinho e era uma choradeira só quando chegava a hora da "despedida".
Minha avó fazia também um cuscuz salgado que era uma delícia. Iguaria que, aliás, nunca mais tive a oportunidade de provar. Aqui no Rio só se conhece o cuscuz doce. As pessoas até estranham quando eu falo que existe (ou existia) um cuscuz salgado. (Se algum(a) leitor(a) sabe do que estou falando, aceito, de bom grado, o envio de receitas desse prato que me deixou saudades).
Meu avô e meu pai compravam sempre uma grande cesta de Natal. Não éramos ricos, mas, naquele tempo, as cestas eram mais acessíveis. Eram cestas grandes e bem acabadas que depois se transformavam em caixas de brinquedos ou de armazenar gibis.
E era um festival de nozes, avelãs, pinhão (alguém conhece?), passas e frutas, cristalizadas e naturais, de todos os tipos.
Nem é necessário dizer que essas lembranças me marcaram definitiva e positivamente.
As festividades de Natal, para mim, ficaram associadas não só à ceia, mas muito mais à confraternização.
Os presépios então...
Todas as casas tinham o seu. Dos mais modestos até algumas verdadeiras obras de arte. Como o de um vizinho que construía o seu em planos diferentes, ocupando toda a sua sala. Com roda d'água em movimento, pequenos laguinhos e luzes estrategicamente posicionadas... Isso com os precários recursos de quarenta anos atrás! Vinha gente de longe para apreciar.
O ritual de montagem dos presépios era uma das coisas mais gostosas dos dias que antecediam o Natal e ficávamos na maior curiosidade para conhecer as inovações dos nossos vizinhos. Todo ano tinha alguma novidade.
A celebração do nascimento do menino Jesus era fundamental. Não havia como dissociar das comemorações.
Hoje é tudo muito diferente.
Tudo muda, eu sei... Mas de vez em quando - só de vez em quando - poderia mudar para melhor.
_______________
Acho que esse soneto do Machado de Assis vem a calhar.
Soneto de Natal
(Machado de Assis)
Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
_______________
Mudaram os dois, penso eu.
_______________
UPDATE (20/12 - 01:20h): Ainda bem que a Carolina me chamou a atenção. Pinhão é típico das festas juninas... O que eu queria lembrar (e troquei os nomes) era a castanha que, como o pinhão, também era cozida!...
E o Bananassauro lembrou o nome das cestas de Natal Amaral!!
Obrigado aos dois.
:: Publicado por
Paulo
:: 4:18 PM ::
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Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

ESTATUTO DO HOMEM
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
Agora vale a vida e, de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964
:: Publicado por
Paulo
:: 11:31 AM ::
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Sábado, Dezembro 04, 2004

MUDANÇAS.
Estou em plenos preparativos para mudar na próxima semana.
Não é uma grande mudança. Saio de um bairro para o outro adjacente. Poucos quarteirões de distância.
Também não tenho muita coisa para levar. Algumas caixas com os meus LP's de vinil... Outras tantas com os meus CD's... Poucos móveis.
O que me preocupa é que toda mudança envolve mudanças.
Explico. Toda mudança de residência envolve outras mudanças colaterais e imprevisíveis.
Começa na hora de esvaziar os armários e as gavetas.
Aquela carta, guardada lá no fundo de uma gaveta qualquer, que queríamos esquecer, mas nos recusamos a destruir... O velho disco de vinil, dedicatória rabiscada na capa, com aquela música que significou tanto e que há anos não ouvíamos... A velha foto esquecida... Tudo vai ressurgir. Lembranças, boas e ruins, vão aflorar.
Outra mudança colateral decorre da mudança de local. Nova vizinhança, nova rotina...
De qualquer modo, o processo já se iniciou e é irreversível.
Dezembro. Festas se aproximando, ano terminando.
Talvez seja um bom momento para uma faxina mais apurada e, sem dúvida, um bom teste para o coração.
P.S.: Talvez eu fique ausente daqui por algum tempo. Mudança de ponto de Internet, talvez mudança de linha telefônica...
:: Publicado por
Paulo
:: 12:07 PM ::
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Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Eu já conhecia a "Receita de Mulher" do saudoso Vinícius de Moraes.
Recentemente li e gostei de uma outra receita. Essa consta como do Millôr Fernandes (a confirmar).
Receita de Mulher.
Chef Millôr Fernandes
Categoria: Snacks & Aperitivos
Considerações: Baixa Caloria
Ingredientes:
Manteiga, ovos, queijo, caviar do Báltico, azeitonas gregas, carne branca, leite, cenouras, ostras, romãs.
Preparo:
Pega-se manteiga, ovos e um pouco de queijo e faz-se o cabelo louro. (Quem preferir cabelos castanhos adicione um pouco de caviar do Báltico). Com duas azeitonas gregas faz-se os olhos. Com um pouco de carne branca e duas xícaras de leite faz-se os seios. Com raspas de cenoura faz-se as unhas. Com ostras e grãos de romã faz-se o sexo.
Coloca-se em leito morno e vai-se virando lentamente até atingir o ponto.
Come-se com um pauzinho...
:: Publicado por
Paulo
:: 10:54 PM ::
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